É triste ser analfabeto

A entrevista das páginas amarelas da revista Veja que mais me impressionou – e olhe que já são centenas, talvez milhares! – foi com o sr. Antônio Ramos da Silva, publicada na edição 1435, de 13 de março de 1996, com o título acima. Eu a recortei, tirei várias cópias e mandei-as para dezenas de amigos e políticos.

Como ninguém há de se recordar lembro que o sr. Antônio Ramos da Silva exercia na época o cargo de prefeito de Quixaba, município pobre de Pernambuco, com cerca de 7.500 habitantes, a 430 quilômetros do Recife.

Antônio Ramos da Silva era também um pequeno agricultor, possuía 49 anos de idade e, como dizia a revista, “tinha tudo para ser apenas mais um número nas estatísticas da miséria no Brasil”. Cresceu com 11 irmãos, nunca foi à escola e era analfabeto.

Apesar dessas credenciais, o sr. Antônio Ramos da Silva esteve em Belo Horizonte nos primeiros dias daquele ano para receber homenagem especial do Ministério da Educação. Foi apontado como modelo entre os cinco mil prefeitos brasileiros pelo que fez na área da educação.

Mas, o que será que esse homem fez de extraordinário na sua cidade e o que disse à Veja naquela entrevista?

Primeiro, ele explicou que só pôde ser eleito (a Constituição proíbe analfabetos de concorrer a cargos públicos) porque aprendeu a desenhar o nome. Com isso, tirou o título de eleitor e resolveu o problema.

Depois, para justificar porque gastava 40% do orçamento municipal em educação, índice muito acima do mínimo previsto em lei, de 25%, conceituou que “nada é tão importante quanto a educação” e que só uma “pessoa analfabeta (como ele), que não teve chance de estudar, sabe o que é isso”!

Esse homem ainda fez coisas incríveis: aumentou os salários dos professores a tal ponto que no município apenas o prefeito e os secretários ganhavam mais do que eles, e contratou no Recife pessoas diplomadas em curso superior para ensinar nas escolas do município.

Disse mais que “educação é coisa simples, que não precisa de muito dinheiro nem de grandes planos para dar certo.”

Por que trago à baila, hoje, essa matéria de quase dez anos atrás!

Simplesmente porque continuo achando que a única saída para a redução das desigualdades sociais e para tirar o povo da miséria é a educação. É preciso oferecer aos despossuídos um ensino público de qualidade e investir poderosa e permanentemente na educação fundamental. Se o sujeito nasce pobre na zona rural e na periferia das grandes cidades morre miserável ou na marginalidade. Somente a educação pode contrabalançar essa adversidade. Os pobres têm direito a um ensino público igual ao que os ricos podem comprar e isso está longe de se verificar no país.

Eu me lembro que em 1994, quando possuía um sítio em pequena cidade do Recôncavo, elaborei um programa de governo e um plano de educação básica para o município e os ofereci a um candidato a prefeito. Ele gostou das propostas e prometeu implantá-los, caso fosse eleito. Propus-lhe, então, que me nomeasse secretário de Educação, sem direito a honorários, ou compensação financeira de qualquer espécie, para executar o projeto. Infelizmente isso não seria possível, ele me disse muito claramente. Esse cargo pertenceria a sua mulher, professora primária …

Ele não ganhou a eleição e certamente foi a mulher de outro quem ganhou o emprego!

Na entrevista do sr. Antônio Ramos da Silva, prefeito de Quixaba, ele diz sem rebuços que a educação municipal no Brasil “é ruim porque, na maioria das vezes, funciona como cabide de emprego. Muito prefeito assume o poder só para poder empregar a família.”

Se não fizermos uma revolução nessa área não daremos um passo à frente no país para reduzir a distância abissal que separa a classe média e os ricos dos pobres.

O senador Cristóvão Buarque, ex-ministro da Educação do triste governo Lula, defende a idéia da federalização do ensino fundamental, um projeto que não visa à desmunicipalização da gestão do ensino básico, mas à implementação de algumas políticas mínimas obrigatórias, entre elas notadamente o estabelecimento de um piso salarial, a adequada formação de professores e a existência de instalações e equipamentos mínimos em cada escola, assegurados pelo governo federal. O município pode dar mais, se puder, mas as condições mínimas estarão uniformemente garantidas em todo o território nacional.

Talvez seja por aí que a gente dê início à revolução que precisa ser feita no ensino fundamental publico em nosso país.

Ah! e o prefeito Antônio Ramos da Silva? Bem, depois de cumprido o mandato ele deve ter realizado o sonho, que confessou à Veja, de entrar numa escola e aprender a ler e escrever.

Salvador, 27/09/05

Descargar PDF (57 Kb)

Enlace permanente a este artículo: http://cebem.org/?p=1562